domingo, 30 de junho de 2013

Arnaldo Antunes Fala

Retirado do DVD "Ao Vivo Lá em Casa", de 2010.

"Toda pessoa já é talentosa por natureza. Porque você  sabe usar o discurso: você fala com sua mãe de um jeito; com o policial de outro; com o porteiro do prédio de outro; com o seu filho de outro... O discurso se adequa. Eu na verdade tenho o anseio de estar o tempo todo de certa forma alterando a sensibilidade, a consciência das pessoas; mas ao mesmo tempo, tenho um desejo muito da simplicidade, da naturalidade, de estar dizendo às vezes umas coisas que são óbvias, só que as pessoas não estavam vendo sob aquela óptica, aquele ponto de vista. Daí as pessoas falam da alma ser aquilo que você tem “lá dentro”, escondido no fundo, mas a alma está na pele. E a música traz muito isso. Por isso que ela faz a pele arrepiar, o pé bater no ritmo, as pessoas dançarem, ela move a coisa do corpo.
Eu acho que a questão da arte está muito em como você faz as coisas, talvez mais do que no que você faz. Sempre que eu vou fazer uma canção, ou mesmo escrever algo, parece que eu não sei se eu vou conseguir, é sempre uma aventura; e então eu acabo dando um jeito e consigo, mas não conseguir está sempre presente. Eu posso não conseguir.
O tempo todo é um contraponto de ação e repouso, de fala e silêncio, de som e silêncio, você têm o pé e o espaço para dar o passo. Tem o vazio, e isso que faz a coisa se movimentar.
Eu gosto da coisa profana, da coisa híbrida, da coisa mestiça, suja, gosto do berro, a voz que tem o elemento do ruído incorporado. Pra mim, criar sempre foi um sintoma de bem estar, um sintoma de que eu estou alegre. Acho que qualquer pessoa quer estar bem, acho que isso deveria ser um princípio comum a todo mundo."

Gosto bastante dessa fala dele, resume bem muita coisa que eu penso. 

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